Minhas coisas andam comigo!

Eu não gosto de ninguém fuçando minhas coisas, e não é de admirar que muitas delas não saiam de perto de perto dos meus olhos. Como se faz isso? Com uma bolsa, claro! Pra vocês, um trecho de um dos meus livros preferidos de quando era criança (essa edição inclusive com uma dedicatória pra mim!):

A Bolsa Amarela

“Capítulo II

(…) Vi aparecer uma bolsa; todo mundo pegou, examinou, achou feia e deixou pra lá. Antes, quando chegavam os pacotes da tia Brunilda e não sobrava nada pra mim, eu ficava numa chateação daquelas. E se eu pedia qualquer coisa, o pessoal falava logo:

− Ora, Raquel, a tia Brunilda só manda roupa de gente, não serve pra você.

− É só cortar, diminuir.

− Não adianta: mesmo diminuindo, tudo fica com cara de roupa de gente grande.

− Roupa não tem cara.

− Tem sim, senhora.

E nunca fiquei com nada. Num instantinho sumiam com tudo, e usavam, usavam, usavam até pifar. Aí, no dia que a roupa pifava, a gente ajeitava daqui e dali, e a roupa ficava pra mim. Eu não dizia nada. Até que uma vez não resisti e perguntei:

− Quer dizer que quando a roupa pifa, pifa também a tal cara de roupa de gente grande?

E o pessoal falou que sim, que era isso mesmo. (É por causa dessas transas que eu queria tanto crescer: gente grande tá sempre achando que criança tá por fora.)

Aí aconteceu uma coisa diferente: de repente sobrou uma coisa pra mim.

− Toma, Raquel, fica pra você.

Era a bolsa.

A bolsa por fora:

Era amarela. Achei isso genial: pra mim, amarelo é a cor mais bonita que existe. Mas não era um amarelo sempre igual: às vezes era forte, mas depois ficava fraco; não sei se porque ele já tinha desbotado um pouco, ou porque já nasceu assim mesmo, resolvendo que ser sempre igual é muito chato.

Ela era grande; tinha até mais tamanho de sacola do que de bolsa. Mas vai ver ela era que nem eu: achava quer ser pequena não dá pé.

A bolsa não era sozinha: tinha uma alça também. Foi só pendurar a alça no ombro que a bolsa arrastou no chão. Eu então dei um nó bem no meio da alça. Resolveu o problema. E ficou com mais bossa também.

Não sei o nome da fazenda que fez a bolsa amarela. Mas era uma fazenda grossa, e se a gente passava a mão arranhava um pouco. Olhei bem de perto e vi os fios da fazenda passando um por cima do outro; mas direitinho; sem fazer bagunça nem nada. Achei legal. Mas o que achei ainda mais legal foi ver que a fazenda esticava: ‘vai dar pra botar um bocado de coisa aí dentro’.

A bolsa por dentro:

Abri devagarinho. Com um medo danado de ser tudo vazio. Espiei. Nem acreditei. Espiei melhor.

− Mas que curtição! – berrei. E ainda bem que só berrei pensando: ninguém escutou nem olhou.

A bolsa tinha sete filhos! (Eu sempre achei que bolso da bolsa é filho da bolsa.) E os sete moravam assim:

Em cima, um grandão de cada lado, os dois com zipe; abri-fechei, abri-fechei, abri-fechei, os dois funcionando bem que só vendo. Logo embaixo tinha mais dois bolsos menores, que fechavam com botão. Num dos lados tinha um outro – tão magro e tão comprido que eu fiquei pensando o que é que eu podia guardar ali dentro (um guarda-chuva? um martelo? um cabide em pé?). No outro lado tinha um bolso pequeno, feito de fazenda franzidinha, que esticou todo quando eu botei a mão dentro dele; botei as duas mãos: esticou ainda mais; era um bolso com mania de sanfona, como eu ia dar coisa pra ele guardar! E por último tinha um bem pequenininho, que eu logo achei que era o bebê da bolsa.

Comecei a pensar em tudo que eu ia esconder na bolsa amarela. Puxa vida, tava até parecendo o quintal da minha casa, com tanto esconderijo bom, que fecha, que estica, que é pequeno, que é grande. E tinha uma vantagem: a bolsa eu podia levar sempre a tiracolo, o quintal não.

O fecho

A bolsa amarela não tinha fecho. Já pensou? Resolvi que naquele dia mesmo eu ia arranjar um fecho pra ela.

Peguei um dinheiro que eu tinha economizado e fui numa casa que conserta e reforma bolsas. Falei que queria um fecho e o vendedor me mostrou um, dizendo que era o melhor que tinha. Custava muito caro, meu dinheiro não dava.

− E aquele? – apontei. Era um fecho meio pobre, mas brilhando que só vendo.

O homem fez cara de pouco caso, disse que não era bom. Experimentei.

− Mas ele abre e fecha tão bem.

O homem disse que o fecho era muito barato: ia enguiçar. Vibrei! Era isso mesmo que eu tava querendo: um fecho com vontade de enguiçar. Pedi pro vendedor atender outro freguês enquanto eu pensava um pouco. Virei pro fecho e passei uma cantada nele:

− Escuta aqui, fecho eu quero guardar umas coisas bem guardadas aqui dentro desta bolsa. Mas você sabe como é que é, não é? Às vezes vão abrindo a bolsa da gente sem mais nem menos; se isso acontecer, você precisa enguiçar, viu? Você enguiça quando eu pensar ‘enguiça’, enguiça?

O fecho ficou olhando pra minha cara. Não disse nem que sim nem que não. Eu vi que ele tava querendo uma coisa em troca.

− Olha, eu já vi que você tem mania de brilhar. Se você enguiçar na hora que precisa, eu prometo viver polindo você pra te deixar com essa pinta de espelho. Certo?

O fecho falou um clique baixinho com toda cara de ‘certo’. Chamei o vendedor e pedi pra ele botar o fecho na bolsa.

Cheguei em casa e arrumei tudo o que queria na bolsa amarela. Peguei os nomes que eu vinha juntando e botei no bolso sanfona. O bolso comprido eu deixei vazio, esperando uma coisa bem magra pra esconder lá dentro. No bolso bebê eu guardei um alfinete de fralda que eu tinha achado na rua, e no bolso de botão escondi uns retratos do quintal da minha casa, uns desenhos que tinha feito, e umas coisas que eu andava pensando. Abri um zipe; escondi fundo minha vontade de crescer; fechei. Abri outro zipe; escondi mais fundo minha vontade de escrever; fechei. No outro bolso de botão espremi a vontade de ter nascido garoto (ela andava muito grande, foi um custo pro botão fechar).

Pronto! a arrumação tinha ficado legal. Minhas vontades tavam presas na bolsa amarela, ninguém mais ia ver a cara delas.”

Eu sempre me achei muito parecida com essa personagem, fora a vontade de crescer, que eu nunca tive, mas o resto me achava igualzinha! =P A parte chata é que justamente no dia em que eu pude conhecer a mulher que povoou minha infância, fiquei paralisada e não soube o que dizer pra agradecer por tantas belas histórias… #failpramim

Pessoas que ficam se mudando precisam aprender a carregar a casa nas costas, pra não se sentirem perdidos sem reconher nenhum lugar. A Raquel guardava fotos de um quintal distante pra se sentir mais em casa e todas as suas outras vontades. Com o tempo eu tenho aprendido que não importa aonde eu esteja contanto que as coisas que eu gosto estejam comigo pra me fazer companhia. A Brenda já aprendeu isso também e o Thiago está começando a ver que o “seeeu reeeino” é algo que ele pode muito bem sair levando por aí!

13 thoughts on “Minhas coisas andam comigo!

  1. Rsrs… o interessante é que tenho esse livro aqui comigo… com essa mesma capa… só tenho de acha-lo na “pilha de livros”😀
    e é verdade… a parte mais gratificante de ter o “seu reino” é poder levar ele pra onde você for… e mesmo longe poder chamar seus amigos de “reinos distantes” para sempre visita-lo….
    Saudade.

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  2. Eu tinha um amigo que dizia levar a vida nas costas. Eu respondia que levava a minha vida no meu diário, que me acompanhava pra cima e pra baixo. Nem sei por que é que lembrei disso agora, rs!😉
    Mas realmente, o que importa é não deixar nenhuma parte importante da nossa história para trás – o coração é a bolsa mais larga que se pode ter, mais larga até do que a gente julga ser!
    Beijinhos, flor!

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  3. Oi, Nine!
    Tenho andado muuuuito ocupada ultimamente, legendando uns vídeos, o que só tem sido possível na faculdade nos meus tempos livres da manhã [entre as aulas], já que estou sem pc em casa de novo. Isso tem reduzido quase a 0 minha frequência na internet, e meu tempo livre para blogar e navegar entre os blogs.
    Mas falta pouco para terminar, tudo vai depender do tempo de acesso que terei ao laboratório com o programa.
    Assim que possível, leio seus posts com calma, para poder comentar ‘com qualidade’, e respondo seus comentários lá no blog, tah?!

    bjuxx*
    (L)

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    • Apesar de ainda estar no começo e não estar tão ocupada quanto vc eu sei exatamente como vc deve estar ocupada!!! Imagina eu no final do período, acho que vou dar uma sumida também (ou não! :D). Passe quando puder, sua boba, te amo!

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  4. Mudanças são necessárias. Às vezes são simples, outras afetam nossa vida inteira. Mas se conseguirmos tirar proveito delas o resultado será maravilhoso!

    Até mesmo porque nem sempre podemos fazer as coisas como queremos. Imagine só se pudéssemos levar todos nossos amigos pra nova cidade em que temos que nos mudar? Seria um sonho!

    Mas que todos nós aprendamos a seguir aprendendo com as experiências da vida =)

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  5. MEOOO DEOOOSSS!!!! JEOVÁ, ALLA, BUDA E SHIVAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!

    Eu li esse livro umas 100.000.000.000.000.000.000 vezes!!!!!

    #NOSTALGIA-TOTAL-AGORA

    KADÊ MEU LIVRO??? QUEM ROUBOIU MINHA BOLSA AMARELAAAA?????

    Deve ser por isso que até hoje só uso bolsas grandes… ENORMES, na verdade. Até o Graal tá lá dentro, só não consigo achar…

    **O background continua confundindo meus cesos!!

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