O que é meu é seu

“Nisso, os dois viram que Atamangnerk tinha se afastado e estava amarrando os oito cães aos arreios do trenó do falecido Dr. Richardson.

– Ei, você! – gritou o comandante. – Que pretende fazer?

O guia esquimó deu uma risada, enquanto o seu colega Papoolik ria também, sem largar o braço de Thorwald.

– Atamangnerk não vai para Alert – declarou o primeiro innuite. – Atamangnerk só voltou com os homens brancos para apanhar o trenó. Atamangnerk não gosta da civilização e prefere viver no inlandsis, pois vai se casar com Joanacy, filha de Ernenek, e ter filhos solteiros, para ajudá-lo na caça e na pesca. É isso o que o Atamangnerk vai fazer!

O comandante e o médico se entreolharam, espantados.

– Deixe-o ir – suspirou o Dr. Norton. – Realmente, ele deve se sentir tão mal, na nossa civilização, como nós nos sentimos mal, na civilização dele… Cada macaco no seu galho, comandante.

E foi o primeiro a se despedir do guia, apertando-lhe a mão, no alto, por cima da cabeça.

Apornikinati, Atamangnerk!

Apornikinati, angekok!

Evidentemente, angekok queria dizer doutor. O comandante, o Tenente Walton, Papoolik e a dupla Ju-Ju também se despediram do esquimó e ele subiu para a trave posterior do trenó, fustigando os cães com o chicote de seis metros de comprimento.

– Oomph, kingmiks! Atamangnerk volta para a boa vida! Oomph!

E o trenó partiu, puxando pelos oito cães atrelados em formação de leque, e logo se afastou, deslizando pelo meio da planície branca.

– Meu Deus! – murmurou Jussara, preocupada – Tomara que eles não comam esses pobres cachorrinhos! A fome, aqui no Ártico, não é mole não!

– Pior do que isso – concluiu Júlio César. – Mesmo quando um esquimó caça um urso, ainda se arrisca a morrer envenenado com as tais triquininas! Viva a nossa civilização, onde os alimentos são fiscalizados pela Saúde Pública!

Só depois que o trenó desapareceu no horizonte é que o Dr. Norton observou:

– O mais interessante é que ele nem sequer nos pediu o trenó emprestado… Aquele veículo fazia parte da Expedição Científica Richardson e, embora os outros membros da expedição estejam mortos, o trenó não pertence ao guia! Isso não deixa de ser uma apropriação indébita!

– Deixe-o para lá  – rosnou o Comandante Marsh. – No Ártico é assim. Os esquimós não sabem o que é propriedade individual. E todos os despojos dos mortos passam a pertencer aos vivos. De qualquer maneira, eu não ia levar aquele trambolho para Alert. Vamos embora!

(…)

O alegre esquimó de uma risada e pôs na boca o cachimbo que tinha apanhado na cabina do piloto do Sweet Hope, acendendo-o com um isqueiro roubado do Dr. Norton. Como dissera o Comandante Marsh, no Ártico é assim: os esquimós são pouco civilizados e não reconhecem a propriedade individual; para eles, os deuses puseram as coisas no mundo pra usa das pessoas que necessitam delas. Por isso, quando o um esquimó é rico, toda a comunidade é rica – e, quando um esquimó é pobre, todos são pobres. Nenhum innuite come, sozinho, uma baleia, enquanto seus irmãos passam fome.”

(Missão Perigosa no Pólo Norte – Hélio do Soveral [Ediouro])

Diretamente aqui do Laboratório de Infomática da UFF-PURO após uma prova de Genética suuuper chata!!!

Apesar de trabalhar numa Biblioteca tenho menos tempo pra ler do que gostaria. São mofos demais pra limpar! Pois é, mofos mesmo. ¬¬ Eu terminei esse livro após duas semanas e ele nem é grande; também não é muito bom, mas até que aproveitei uma parte. 😀

Ele é setentoso, sabe (1970′), mesmo assim estava prestando atenção nos tipos de conceitos que nunca mudam. Uma civilização sempre se considera melhor que as outras em algum aspecto (nesse caso os americanos como sempre e até os dois brasileiros). Não sei por que as diferenças culturais ainda são consideradas como algo ruim diante de nós. Eles também nos acham esquisitos. Não que hoje em dia existam tantas culturas isoladas pra comparar, parece que acabamos com a maioria delas! u.u Mesmo assim, tudo o que é diferente nos parece estranho.

Mas nem era disso que eu queria falar. O que achei mais interessante nos esquimós (considerá-los pouco civilizados é muito estúpido) foi essa coisa tribal que pertence a muitos povos: O que é de um é de todos. As pessoas hoje em dia não sabem como dividir suas coisas com os que tem menos. Dar cestas em datas comemorativas e fazer campanhas de doação mundial não acabam com o problema nem diminuem a nossa responsabilidade.

Às vezes você não precisa de um pacote inteiro de biscoito na hora do lanche (ou bolacha, como dizem minhas coleguenhas paulistas! .-.).  Eu dividia com meus amiguinhos! *=* Na verdade, chegava a ficar sem nada… hahahahaha! A gente aprende a ser meio egoísta desde pequeno e depois viramos essas pessoas estranhas que nem se cumprimentam ao passar uma ao lado da outra, quanto mais dar um prato de comida pra quem está passando necessidade!

5 thoughts on “O que é meu é seu

  1. Eu TIVE que rir do seu pacote de “biscoitos” – realmente, quando eu era criança só haviam pacotes de BOLACHAS!
    Você não faz idéia do quanto eu me divirto tirando sarro do meu namorado carioca por conta de coisinhas como essa!
    E fico feliz por ver posts novos dois dias seguidos por aqui!
    Beijinhos, flor!

    Gostar

  2. Ué? Vc já leu todos os livros da série Missão Perigosa de Yago Avenir (pseudônimo)? Tem bons títulos como Missão Perigosa em Paris e Hollywood. dos 13 títulos tenho 6, está difícil encontrar os outros restantes, mas os livros da série são bem interessantes, recomendo que leia o resto das aventuras da dupla Ju-Ju.
    No mais, eu achei interessante vc relacionar esse trecho do livro (no qual eu ainda não li) com uma questão à nível global que nunca mudou e creio eu, nunca mudará…

    Gostar

    • Não li todos, mas do que eu li senti que falta alguma coisa. Se o enredo fosse mais desenvolvido a história ficaria melhor.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s