Um ensaio de sorriso

Preciso confessar algo no qual ainda não havia pensado até pouco tempo atrás: eu sorrio para velhinhos na rua. E não digo isso para parecer fofa ou merecer algum crédito. É só que, veja bem, não sou exatamente educada com todo mundo. Se eu vir alguém na rua e não quiser bancar a boa cidadã eu mudo de calçada. Posso realmente não ter visto também, afinal de contas eu sou míope, mas a questão não é essa. Tirando os velhos tarados que olham pra minha bunda quando eu passo e as velhas mal encaradas que me olham como se ainda ter queixo fosse um insulto a elas, eu sorrio pros velhinhos que olham pra mim.

É uma coisa que peguei da minha mãe, provavelmente. A gente sempre morou em cidades do interior e, a maioria das pessoas não deve se lembrar (os adolescentes menos ainda), os costumes antigos eram outros. Você teria que parar para falar com fulano na rua, perguntar como andava a família, conversar uns cinco minutos sobres assuntos amenos e somente depois ir-se embora. Minha mãe sempre parava pra falar com a velharada na rua – sem insulto aqui, ela sempre amou todos eles e vive dizendo que gostaria de abrir uma creche para velhos ou adotar alguns.

Nunca fui de pedir a bença’ para o meu avô por falta de costume, ele também nunca me exigiu, mas sempre houve respeito e eu acabava parando pra conversar com ele, já depois que a idade pesou, porque sabia que ele precisava falar, reclamar da vida, elogiar mulatas que passavam na rua e na televisão, coisas assim. Quando era criança fui muito apegada ao meu ele, porém quando cresci as coisas foram mudando e eu queria cuidar dos meus assuntos. Isso foi um erro comum, na verdade, porque a tendência das pessoas é crescer e se achar mais evoluído que as gerações anteriores. Só que meu avô era o máximo, um dos homens mais inteligentes que eu conheci – embora bastante machista em alguns pontos. Então eu dei atenção a ele, não tanto quanto deveria, mas não o insuficiente pra me arrepender amargamente quando ele se foi.

Esses velhinhos que vejo na rua têm filhos e netos que não lhes dão atenção (especulando apenas), eles esperam que alguém lhes diga bom dia/boa tarde/boa noite alguma vez durante o dia. Conheço uma senhora que estava sempre no portão da casa dela falando sozinha, esperando alguém passar pra comentar o assunto em que estava pensando. Isso é triste. Então, já que não custa nada, nem mesmo meu precioso tempo gasto com assuntos pessoais, de vez em quando eu dou um sorrisinho pra alguns deles; respondo um “bom dia” pra alguém que não conheço só pela educação de interior a qual me acostumei, sem me preocupar muito se serei assaltada ou coisa assim. Tudo pra não esquecer o meu avô, da gente antiga e, pensando de modo egoísta, não me perder também.

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