A variável Bárbara

Pra contar essa história eu preciso voltar no tempo, até 2007, e explicar tudo desde o começo para que alguém consiga entender. Nesse ano específico minha vida estava uma merda, não vou todos os detalhes embaraçosos e compridos, só preciso dizer isso. Por volta de Abril, se não, engano, comecei a trabalhar em uma pequena escola particular que pertencia a minha ex-professora da 3ª série. Eu tinha 18 anos, tinha feito Ensino Médio Formação Geral, basicamente significava que pra ter um emprego eu precisava caçar, e eu não sabia fazer isso. Minha mãe conversou com a dita dona e eu fui lá pra trabalhar na secretaria e “ensinar” aos alunos a usar o computador. O problema é que eu não sabia o que ensinar, então inventava – e ainda fazia mais um monte de trabalho burocrático.

A Escola era bem pequena mesmo, Alfabetização até a 4ª série, não tinha muitos alunos. E na 4ª série estava a Bárbara. E eu gostava muito dela, era doce, educada, me tratava bem (crianças são ruins as vezes) e eu meio que me identificava porque as meninas implicavam um pouco com ela. Infelizmente eu só trabalhei nessa escola até o final do ano, porque minha mãe cismou de ir morar em Minas Gerais! Não estou me lembrando agora se a Bárbara foi na minha festa de final de ano em casa, cujo tema foi A Primavera. Eu enfeitei tudo com balões coloridos, pedi ajuda pra uma colega que era mãe de uma das alunas pra fazermos doces, lembrancinhas, e o BOLO, que deu errado mas ficou gostoso.

Minha mudança pra Minas foi um inferno. E gelado, porque eu passei um inverno no verão por causa da altitude. Foram seis meses horríveis e mamãe não aguentou a gente enchendo o saco, então voltamos. Pra Casimiro, não pra Macabu. Odiei ela por isso por bastante tempo, acontece com filhos e mães, infelizmente. Essa é a primeira parte da história.

A segunda começa por volta do ano passado, quando reencontrei a Bárbara no Facebook. Ela está tão linda e poderosa que provavelmente agora é ela quem implica com as garotas haha! Ela lembrou de mim, sem que eu tenha dito nada, por causa de uma foto. Disse que eu parecia uma “professora” (nhoim *-*) que ela teve e gostava muito. Eu desabei, porque lembrava dela às vezes, mas não o sobrenome de modo que não sabia onde procurar, internet não ajuda muito se você não souber por onde começar. Aí adicionei ela, nós conversamos algumas vezes e de vez em quando eu vou lá e dou uma curtida nela. Temos vidas completamente diferentes agora, ela está com 16/17 e no auge na bela adolescência, eu 25 e cheia de adultices pra fazer.

Essa semana eu acordei de um sonho maluco, como tantos outros, em que vi as amigas dela da escola, crianças ainda, mas não ela. Quando acordei me lembrei de uma coisa que ela me disse logo que nos reencontramos, que sentiu muito a minha falta durante um tempo e ficava triste. Cheguei a me sentir culpada quando ela disse isso, não imaginava que alguém fosse sentir minha falta e ficar assim se nem alguns amigos meus sentiram. Se ela tivesse me dado o endereço naquela época eu teria escrito várias cartas, em 2008 eu fiz muito isso, pra ver se alguém me respondia e nem sempre aconteceu.

Me senti responsável por uma menina de 10/11 anos que não existe mais. Foi daí que surgiu a variável Bárbara. Se eu tivesse escrito cartas pra ela, muitas coisas seriam diferentes hoje, mais pra mim do que pra ela porque eu é quem sou a manteiga derretida. Saber que alguém lá no outro estado, na cidade em que eu queria estar, leria e ficaria feliz com cartas minhas teria me feito aguentar mais. Então eu decidi escrever pra ela, e colocar aqui mesmo, pra todo mundo ver. Pra pedir perdão à Bárbara de 11 anos, mesmo que não faça diferença agora. Nunca saberemos o que aconteceria, também não adianta derramar mais lágrimas por águas passadas. Se hoje somos como somos é porque aprendemos a suportar algumas coisas. Lá vai.

Resende Costa – MG, algum mês de 2008

Querida Bárbara,

Como está você? Espero que bem tanto em casa como na Escola. A Tia Rose já conseguiu aumentar o colégio ou vocês tiveram que ir pra outro? Como estão as outras meninas?

Aqui é um lugar muito chato, está sempre frio e eu não tenho amigos pra conversar. É tudo cheio de morro, não tenho vocação pra cabrito pra sair andando por aí, é tudo muito longe.

Ainda por cima o computador estragou, cheio das histórias que eu estava escrevendo. Uma menina me disse que era só começar a fazer tudo de novo, vê se pode! Não é tão fácil assim, nem vou conseguir lembrar de tudo que estava escrito… Talvez eu não consiga mais escrever direito depois disso.

Sinto saudade de você e das meninas, dos meninos não, eles faziam muita bagunça! Haha Espero que dê pra você responder a carta logo pra eu saber se estar tudo bem e podermos conversar mais, mesmo que demore entre uma carta e outra.

Obedeça seus pais, estude e não fique chata como essas meninas daí!

Um beijo grande,

Aline Leal

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