Resenha|Comentário: Micrômegas – Uma história filosófica (Voltaire)

[Não achei necessário indicar publicação por ser de domínio público]

Eu não posso dizer que sou uma pessoa que gosta de ler textos filosóficos, sinceramente acho que ao invés de ficar discutindo sobre o que é a vida e qual o sentido de tudo, é melhor sair e viver. Mas de vez em quando a gente precisa sair do seu lugar de conforto e tentar coisas novas, isso serve pra qualquer coisa, inclusive para a leitura. Até porque quanto mais variados forem os assuntos, maiores são as chances de escrever melhor. E é sempre bom ter mais alguma coisa na bagagem pra compartilhar com as outras pessoas.

Micrômegas é uma obra curta (daquelas que não levam nem uma sentada), mas muito rica e que aborda assuntos importantes, publicada em 1752. Incrivelmente costumamos pensar, em nossa ignorância, que para ter algum valor os livros precisam ser extensos e repletos de palavras complicadas ou sei lá mais o quê. Na verdade esse é um dos assunto abordados no livro, a questão do tamanho e dos pontos de vista.

Voltaire escreveu esse livro após ter lido As Viagens de Gulliver (Swift), aquele livro onde o sujeito homônimo do título viaja para Liliput (uma terra cheia de gente pequena) e depois para Brobdingnag (uma terra cheia de gente grande). Confesso que tenho ele aqui, mas ainda não avançou na minha pilha de projetos de leitura – principalmente por ser em inglês. O fato é que essa dita obra trata satiricamente dos costumes da época (séc. XVIII). Parece que só dava pra tratar de assuntos importantes dessa forma, não sei se tinha tanta gente burra assim que não entendia ou se eles gostavam de uma piada interna.

Em Micrômegas, Voltaire conta a história de outro sujeito homônimo, um ser grandioso e sedento de conhecimento, com inúmeros pés de altura, mas que estava à frente da época até mesmo de seus compatriotas lá pras Bandas da estrela Sírio. Então um dia ele resolveu viajar pelo Universo em busca de mais conhecimento. Esse lance de sair do seu planeta e viajar por aí conhecendo lugares grandes e pequenos, com pessoas muito distintas, me lembrou um pouco O Pequeno Príncipe.

Enfim, em um dado momento ele chega em Saturno, um planeta consideravelmente menor onde as pessoas não eram tão inteligentes e nem tão altas, mas ainda enormes. Ele encontra um dos secretários de lá, que demonstra algum conhecimento do universo, mas tem uma mania feia de ficar puxando o saco.

“Eu não quero que me agradem, quero que me instruam.”

Sábias palavras, sábias palavras.

Durante uma “conversação” entre os dois, Micrômegas chega a conclusão de que não importa o tamanho do planeta e de sua gente, muito menos do seu conhecimento, as pessoas nunca parecem estar satisfeitas com o que tem. Elas sempre tem diferentes pontos de vista sobre seus desejos e necessidades, mas raramente total satisfação.

Eles resolveram em seguida viajar juntos por aí, passando por vários planetinhas insignificantes, até chegarem à Terra, igualmente insignificante. Após darem a volta completa em torno dela em cerca de 36 horas, chegam a conclusão de que não há gente por aqui. Mas Micrômegas nunca está satisfeito com apenas olhadelas superficiais, ao contrário do “Anão” de Saturno, que eu nunca vi mais preconceituoso e dentro do seu quadrado. Como filósofo e cientista do conhecimento ele deveria ser mais aberto a novas visões.

Milagrosamente o colar de diamantes de Micrômegas cai ao chão e se quebra, deixando que suas pedras sejam usadas como uma espécie de microscópio. Primeiramente eles conseguem ver uma baleia, depois um navio. Barco este que estava carregado de filósofos franceses de 1700(e bolinha). Obviamente o Saturniano logo pensou que seres tão minúsculos não seriam capazes de ter um pensamento, mas Micrômegas teve que jogar na cara dele mais uma vez que estava errado, pois o tamanho não interfere no espírito e na capacidade do pensamento. *slapt*

Durante o papo com os filósofos – cujo navio estava estrategicamente empoleirado na UNHA de Micrômegas – descobriu-se que os humanos perdem muito tempo fazendo guerras e discutindo coisas sem sentido. Voltaire também deu um jeito de falar mal dos filósofos com que ele não concordava, da religião que impedia o avanço da ciência e até mesmo a ciência que não tenta superar a si própria. Como eu disse, muito rico.

Como é que se pode tirar tanta coisa de um texto tão curto e ainda ter mais coisas a dizer, mas se guardar pra não contar tudo? Pois acredite, estou fazendo um esforço, queria dizer tudo aqui. Porque é bom ler algo que nos faça reconhecer nossa pequenez diante do Universo. Um texto tão antigo mas que dá um tapa na cara da sociedade moderna ao mostrar que quanto melhores e evoluídos nos pensamos, mais estreitas são as nossas mentes.

Ah, esse texto também me lembrou do filme Horton e o Mundo do Quem (baseado no livro de Dr. Seuss – autor do Grinch e do Gato de Chapéu), que é uma graça e vale a pena assistir.

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