Mamãe&Bebê » Puerpério

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Só agora, depois de vários meses, me sinto à vontade para comentar sobre esse período horroroso, logo após o nascimento do meu filho. Ninguém nunca me contou que isso podia acontecer. Nenhuma mulher, no meio de todos os conselhos sobre como eu deveria cuidar do meu filho, se deu ao trabalho de me avisar. Eu não quero que isso aconteça com outras mulheres, então me sinto na obrigação de compartilhar.

Quando você vai ter um filho a primeira coisa que elas te dizem é Nossa, você nunca mais vai dormir direito. Soa mais como uma maldição do que qualquer outra coisa. Se eu passei por isso você também precisa passar pra eu me sentir vingada. É óbvio que eu sabia que passaria noites mal dormidas e ficaria cansada, eu escolhi ter essa criança sabendo dos riscos “do mundo hoje em dia” e das possíveis dores de cabeça.

Mas ninguém me preveniu sobre esse terror psicológico dos primeiros meses. Não estou me referindo a depressão pós-parto mas sim aquilo que vem antes, aquela sensação angustiante de Meodeos, o que eu tô fazendo aqui. Pode ter sido em parte culpa minha, no medo de somatizar todas as síndromes de grávida eu deixei algumas informações de lado, até porque já tinha várias outras preocupações na cabeça. E, por sorte, o Pedro não fez a mesma coisa, senão estaríamos ferrados.

É claro que eu fiquei feliz de ter meu filho, foi uma das coisas que eu mais esperei e desejei na vida. Até descobrir que estava mesmo grávida eu chegava a chorar quando minha menstruação descia. E eu sei cuidar de bebês, embora nunca antes tivesse cuidado sozinha de um recém nascido.

Os hormônios, o medo da mãe de primeira viagem, a necessidade estúpida que tenho de me provar, a vergonha de pedir ajuda. Tudo isso se transformou numa bola de neve. Em uma semana eu estava exausta, esvaída de tanto amamentar, morrendo de calor em pleno dezembro e o Pedro precisou voltar a trabalhar.

Mas talvez não tenha sido essa a parte mais difícil. O mais dolorido foi ter uma pessoa logo ali, que não estava emocionalmente disponível, que não teve a capacidade de compreender. As mulheres vivem reclamando o quanto os homens são machistas, só que sinceramente eu acho que mulheres incompreensivas com seu próprio sexo são muito piores. A pessoa acha que você está sendo fresca porque não está passando pela mesma coisa e isso dói tanto, mas tanto, que machuca de novo só de lembrar.

Eu tinha um medo constante de não saber o que estava fazendo e machucar meu filho. E, essa parte eu tenho vergonha de contar mas sei que preciso porque é a mais importante: eu tinha muita, muita raiva. Seres humanos adultos tem o costume de se pensarem tão evoluídos, mas ainda somos primordialmente animais, filhotes na verdade. Precisamos ter nossas necessidade de sono e fome cobertas pra não reagirmos de forma estúpida. Eu estava totalmente minada das minhas forças e queria muito descansar, mas é claro que o meu filho não sabia disso e tinha as necessidades dele. E eu comecei a ficar com raiva dele, porque ele chorava, porque não dormia mais de duas horas seguidas. E era um sentimento tão irracional que passei a ter vergonha de mim mesma, me achando uma pessoa podre, que não merecia o bebê lindo que tinha saído de mim.

Eu olhava pra ele, tão perfeito, mamando no meu peito, e pensava Como eu posso ter raiva de você, que não sabe o que está fazendo, que só precisa de mim? E pedia desculpas a ele várias vezes ao dia, pedia desculpas ao Pedro por ser essa pessoa horrível. E ele dizia que estava tudo bem, que eu só estava cansada e isso ia passar. Mas eu estava esgotada demais pra confiar em mim mesma. Um dia, de manhã antes de ir trabalhar, eu já não tinha forças nos braços nem pra segurar o meu filho e o Pedro segurou ele junto comigo, sentado atrás de mim, e eu apoiando minhas costas.

E eu queria conversar sobre isso com alguém, mas tinha tanta vergonha. Vai que minhas amigas que tinham filhos não tivessem passado por isso e descobrissem a pessoa horrível que eu era? E todas aquelas mulheres que tinham idade para serem minhas mães e, justamente por isso, já julgavam minhas ações todos os dias, o que elas iam dizer? Minha mãe mesmo não reclamou sequer uma vez que isso tenha acontecido. Mas ela morreu quando eu estava com 7 meses de gravidez, não ia mais dar pra perguntar isso a ela.

Não sei dizer se elas não falam sobre isso pra não assustar a gente, se é algum ritual secreto de iniciação à maternidade ou se elas simplesmente esquecem. Eu não lembro da dor do parto hoje como lembrava no dia seguinte. Da mesma forma não me doi tanto hoje escrever sobre isso como doeria na época. Os seres humanos tem mecanismos de defesa contra as dores. É bom pra gente tentar de novo, pra vida seguir seu curso.

Os meses foram passando e as coisas foram melhorando devagar. É importantíssimo prestar atenção se esse período durar mais de três meses, porque aí sim a mulher pode estar passando por uma depressão pós-parto, que pode levar coisas mais sérias. Não sei dizer se foi isso que aconteceu, mas eu conheci uma mulher e ela aparentava estar bem, até que não estava mais. Ela tinha um filho lindo, mas um dia ela decidiu que esse mundo não servia pra ele e nem pra ela. Vocês já devem imaginar o que eu quero dizer. Fico pensando se ela apresentou um caso de depressão pós-parto e ninguém notou os sinais. Ou se ela já era uma pessoa depressiva antes e ninguém viu que ela precisava de ajuda, é uma coisa sempre tão silenciosa e perigosa.

Nem todas as mulheres vão passar por isso, ainda bem. No entanto eu gostaria de pedir aqui um bom tanto de paciência com aquela mulher que está surtando depois de ter um filho. Paciência do marido ou mulher, dos filhos mais velhos, das mulheres da família que não sabem o que significa isso. Pelo amor de Santo Cristo, parem de achar que qualquer reação psicológica feminina é frescura! Vocês não fazem ideia do quanto é ruim precisar de uma pessoa e receber uma reação dessas.

E se por acaso você que está lendo isso for a mulher parida em pandarecos, tenha paciência consigo mesma. Tente descansar junto com o bebê, coma bem, beba bastante água e, o mais importante, peça ajuda. Não seja orgulhosa, não tenha medo. Ao contrário de outras mulheres que passaram por isso e não tem coragem de falar no assunto, eu estou aqui pra dizer que é completamente normal. E passa.

2 thoughts on “Mamãe&Bebê » Puerpério

  1. Esse é o texto mais lindo que já li seu, ou da vida. Eu tive a brilhante ideia de ler “em público”, e tive que tentar disfarçar pra ninguém ver que estava emocionada lendo um texto na internet.
    Queria poder ter estado ao seu lado nesse momento tão importante. Queria te abraçar e dizer que sinto muito. Queria olhar nos seus olhos e dizer “Você é minha heroína!”.
    Eu me sinto receosa em relação a maternidade por conta das situações adversas que eu sei que grávidas podem passar.
    Parabéns, porque você é a melhor mãe que o Erick poderia ter!

    PS: por favor dê um abraço apertado no Pedro e diga que sou muito grata a ele por ser um marido, um pai, um ser humano incrível!

    Amo vocês!❤

    Gostar

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