Os filhos não escolhem os pais

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[Esse texto estava agendado pra semana passada e não foi… Não sei se o destino está querendo me mandar um recado ou se eu esqueci de apertar o botão mesmo.]

Talvez eu devesse ter escrito esse texto na dor e raiva de semana passada. Ele seria menos pensado e mais sentido. Mas também pode ser que agora eu consiga ser mais razoável em não apontar o dedo pra ninguém. Ou não.

Eu não quero ser como a minha mãe. Ressentida. Mal amada. Chantagista emocional. Que coloca medo nos filhos ao invés de dar respeito. Que esconde as coisas. Que arma esquemas pelas costas. Que não senta pra conversar com a filha sobre as mudanças que o corpo dela vai passar. E por isso eu morro de medo quando percebo que estou agindo como ela. Quando percebo que minhas sobrancelhas se juntam e eu faço aquela careta de raiva. Quando meus lábios se contraem de insatisfação. Quando eu digo algo que ela diria e eu não concordava. É absurdo como podemos cometer os erros dos nossos pais.

Minha mãe escolheu ser mãe solteira porque sabia que meu pai era um merda. Pai, se você estiver lendo isso, você é um merda. Você mentiu pra sua primeira esposa, mentiu pra minha mãe, mentiu pra sua terceira esposa e provavelmente mentiu pra suas outras namoradas. Mais do que isso, você agrediu emocional e fisicamente todas elas. Você traiu a minha mãe, deixou ela pagando as contas da casa enquanto poderia arrumar um emprego, você bateu na minha mãe. Mais de uma vez. Bateu na minha mãe enquanto ela estava grávida de mim. E eu odeio você por isso.

Eu não descobri nenhuma dessas coisas até ser adolescente e perguntar pra minha mãe. E mesmo assim ela me contou muito por alto, os detalhes mais difíceis fui saber depois de velha, pelos outros, porque ela mesma não queria me contar. Dizia que não queria influenciar na opinião que eu tinha sobre meu pai. Mas talvez ela devesse ter feito alguma coisa, já que tentou mandar na minha vida em todos os aspectos até depois de eu estar casada.

Mas o pior foi semana passada. Eu estava sensível (leia-se de TPM), já tinha descoberto muitas mentiras sobre meu pai através de tias, irmãs (porque aparentemente filha é só o que ele sabe fazer), mas ainda acreditava em alguma coisa ou outra que ele tinha me dito durante a vida toda. O que eu podia fazer? Nunca morei com ele, falei pouco e o vi pouquíssimas vezes durante a vida. Eu queria acreditar que ele não era essa pessoa horrorosa que todo mundo dizia. E ele ficava enchendo minha cabeça dizendo como as pessoas eram injustas com ele. Conseguiu convencer a minha mãe a perdoa-lo depois de tudo o que aconteceu. Só que semana passada eu peguei mais uma peça, talvez a peça final pra completar o quebra-cabeça das mentiras que meu pai contou sobre a vida dele com as minhas irmãs. Pai, eu tenho nojo de você. Tenho asco dessa pessoa que você é, mentirosa, manipuladora, que tentou me afastar das minhas irmãs com medo de que eu descobrisse o que fez com elas. Mas adivinha? Eu não me afastei. E descobri as coisas horríveis que tem feito durante esses anos e nunca mais quero olhar na sua cara nem saber de você.

No meio disso tudo, estou fazendo mais uma mudança de casa. E lá vou eu olhar papel por papel pra ver o que dá pra jogar fora. (Uma ligeira explicação: Quando minha mãe morreu fiquei “responsável” olhar e separar as coisas dela, descobrindo que ela guardava coisas demais – eu também, estou tentando me livrar desse hábito compartilhado. Não li as cartas que ele mandou pra ela, que estavam comigo há anos, porque não quis invadir a privacidade dos dois. As cartas não eram pra mim e ele queria mais estar perto dela do que de mim, pelo pouco que me atrevi a ler. Enfim. Fim da explicação) Encontrei umas cartas que ELA tinha mandado pra ele, e que ele devolveu numa época que veio atrás dela porque estava doente, querendo voltar blábláblá. Eu não tinha percebido essas cartas antes. Eu não deveria ter lido essas cartas. Porque descobri que existiu uma época, talvez uns 10 anos, em que minha mãe estava separada dele, me criando, e ESPERANDO por ele. Não pude acreditar que minha tivesse sido tão burra. Ela precisou chamar a polícia pra pegar os móveis em casa quando eles se separaram, peloamordedeos! Mas ela perdoou e ainda gostava dele. Queria que ele arrumasse emprego, voltasse pra religião dos dois lá (que nem vale a pena mencionar porque dá mais pano pra manga). Ela ainda gostou dele durante esse tempo todo. Será que morreu gostando dele, mesmo sabendo que ele era um merda e que não ia dar certo? Como pode isso?

Estou até agora tentando não julgar a minha mãe mas não consigo. É um relacionamento absurdo demais. Ela morria de medo de um homem me tratar mal e mesmo assim…

Eu não quero ser como a minha mãe. Não quero ficar doente de tristeza. Não quero colocar todas as minhas expectativas nas outras pessoas e esperar receber coisas que elas nem sabem que precisam dar. Eu não quero ter problemas na minha vida sexual e ser reprimida. Mas sou parecida demais com a minha mãe, embora não fisicamente. Sou cabeça dura, mandona, tenho dificuldades em aceitar conselhos, tenho tendência a ficar ofendida com facilidade. E triste também.

O Pedro diz que eu não sou a minha mãe. Que ao contrário dela eu tenho uma pessoa que me ama pra dividir as coisas. E sim, ele me ama, me respeita, me ouve. Obviamente a gente discorda e eu brigo com ele. Porque ele é gente, e eu detesto gente. Mas tirando isso ele é uma pessoa bastante tolerável.

Tenho medo de ter uma menina e ficar neurótica. embora pense em criar filhos da mesma forma independentemente do gênero.

E eu devo estar passando uma péssima impressão sobre a minha mãe, eu sei disso. Mas ela era diferente pra outras pessoas. Ela era agia de formas diferentes em casa de acordo com o humor. Minha mãe sabia ser uma pessoa maravilhosa. Prestativa, carinhosa, cozinhava muito bem, não fazia vontades, mas deixava eu fazer um monte de coisas que outras mães não deixavam. E nunca disse que eu precisava aprender a cuidar da casa pra casar, mas sim pra cuidar da minha vida. Mas ela podia ser totalmente ao contrário disso. Os anos foram passando e ela foi ficando mais doente, no final só a parte triste restou. Foi muito disso que fez com que não tivéssemos um bom relacionamento e esse assunto mal resolvido pro resto da minha vida.

Eu penso duas vezes antes de decidir como eu quero criar o meu filho pra não ser igual a minha mãe. Eu pego tudo que minha mãe fez na minha criação e espalho pra lá e pra cá pra escolher as coisas que concordo e ver se dá pra reproduzir. Converso com o Pedro o que eu quero pra vida do meu filho, ele fala também e a gente tenta montar uma coisa só. Porque os filhos não escolhem os pais. Eles não merecem que a gente traga tudo de ruim e desconte neles. E definitivamente eu não quero que meu filho lembre de mim mais pelas coisas ruins do que pelas coisas boas, do jeito que eu lembro da minha mãe.

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